quarta-feira, 7 de julho de 2010

Um encontro com a morte.

Nunca tive medo da morte. Em meus tantos anos de vida, ela nunca me propôs apostar o quanto valia continuar aqui, sabia que viveria muito e vivi. Graças a algo que eu não sei, talvez a minha vitrola e todos os discos que infinitamente tocavam, dando a dança de cada dia. Mas hoje, hoje algo está estranho, um medo de partir me consumia. Sabia que meu tempo de farra havia acabado e talvez no fundo no fundo, houvesse uma vontade de reviver minhas lembranças primordias, primarias, primeiras.As minhas tantas mulheres, tantas garrafas, tantas apostas, tantos cigarros. Queria rever alguns rostos, queria relembrar alguns gostos. Sentir o meu potencial de jovem de novo.
Eu vivi um dia de cada vez, sem me preocupar muito com o amanhã, vivi bem, provei de todos os vinhos e de todas as malicias da vida, fui permitido a viver muito, viver de tudo. Vivi, e não tinha medo que me levasse, saberia que um dia chegaria a hora de todos, e acabaria por ai , não poderiamos fazer mais nada. E tambem, no final das contas, não havia nada a que eu me apegasse, era tudo uma breve passagem. Era uma vida de aproveitos, uma vida boa, de varios romances, varios tragos, varias bebidas, varias entradas e varias saidas.
Mas hoje eu sei, que o amor que descobri por minha velha, me faz querer viver, me faz reviver, me faz ver. Rebelde que era, apaixonado que sou. Começo agora uma nova vida, ao lado de uma nova pessoa.
Então, por que agora, justo agora, queres me levar? Sei que estou um pouco velho pra continuar, sei que preciso partir, mas tenho algo que eu não posso deixar para trás, não mesmo. Descobri o amor e a força que ele tem, descobri que ele, mais do que qualquer vontade, do que qualquer gravidade, qualquer coisa, nos prende e me puxa a esse mundo, e eu não posso o deixar. Estou começando uma nova vida, estou caminhando de um novo jeito, sei que é tarde, mais ainda é tempo!
Não deu, a morte soltou a mão da minha velha da minha e me levou. Era o meu fim, um fim inperduoso, incredulo, um fim injusto. Então, ela desligou a minha vitrola e disse:
- Agora, você dança conforme a minha música. O amor não tem idade, mas a vida tem tempo, e viver tem pressa. E a vida meu caro, não é feita de mulheres e cigarros, antes de se começar a viver qualquer coisa, é preciso ter a consciencia de que se está vivendo, não importa como escolha viver... Tantos cometem o mesmo erro que você e chegam no final da vida com a leve impressão de que se faltou algo, talvez tenha faltado a razão de se está vivo. E entretanto no final da festa, só quem se vai é você e a valsa termina sendo minha, e essa música eu sei dançar de cor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário